A moradia era grande e luminosa como um palácio. Encontrava-se no meio de um grande jardim. O jardim rodeava a casa com carvalhos imponentes. Aqui e ali, canteiros às cores. À volta do jardim, um muro alto e espesso e um portão pesado, de ferro forjado, a proteger de mãos e olhares estranhos. Por cima das copas das árvores, por cima do telhado da casa, uma nuvem permanente acrescentava ao conjunto uma leve aura de mistério. Era o fim do dia. O manto escuro e frio da noite avançava sobre a cidade. Um homem parou ao portão. Não trazia nada com ele.
A minha turma de Rádio - Escola das Artes, UCP, Porto
Depois do sucesso do Programa nocturno "Porto Interior", fui convidado pela Rádio Douro a conceber um programa que estivesse nos antípodas do anterior. A ideia seria proporcionar aos ouvintes uma injecção de boa-disposição e informação para acordar com energia. Foi assim que surgiu o "300 à hora - o programa mais rápido da Rádio".
Porquê "300 à hora"? Porque é rápido, energético e dura exactamente 300 segundos; e também porque é à hora, às oito em ponto da manhã, para quem quiser acordar como se bebesse um café sonoro.
Agradeço ao Luís Carvalho e ao Pedro Moreira, meus colegas da turma de Rádio, a preciosa colaboração na locução do programa. E, claro, ao meu professor Henrique Manuel Pereira, o seu constante apoio e entusiasmo.
Esta edição é uma maquete feita a pensar no dia 25 de Dezembro de 2009.
Músicas utilizadas: Despertador - Augusto Casanovas / Os filhos da Nação - Quinta do Bill / Eye of the tiger - Survivor / Master of Puppets - Metallica / Bycicle Race - Queen / Don't Stop Me Now - Queen / Beetlejuice - Soundtrack / Batman - Mamonas Assassinas
Por favor não contes a ninguém. Este é um segredo que tenho muito bem guardado e prefiro que continue assim.
Há três meses, quando cheguei ao Porto, esforcei-me logo por retomar as minhas rotinas de higiene mental e corporal. Uma delas começou a preocupar-me mais: onde - raios - correr nesta cidade? Fui buscar um mapa a uma loja Andante e pus-me a estudar percursos possíveis. A hipótese de longe mais óbvia era o fantástico Parque da Cidade: claro que era o melhor. Experimentei ir até lá a correr mas o resultado não foi animador: demorei precisamente 23 minutos a chegar, o que significava que só com ida e volta despenderia de cada vez 46 minutos, sem chegar a entrar no parque. Ou seja, pouco menos que o tempo que costumo correr. Tive que a rejeitar.
Apesar de tudo, essa experiência teve um benefício: relembrou-me o gosto de correr em percursos longos, sem grandes interrupções, daqueles que permitem desligar a cabeça sem ter que andar constantemente a corrigir a rota ou a contornar obstáculos. Descobri na Avenida da Boavista - a avenida mais comprida da península, diz-se por aqui - uma óptima pista de atletismo. Durante mais de um mês dei-me por satisfeito: saía de casa, chegava à Rotunda da Boavista e lá ia eu, avenida abaixo, até ao Castelo do Queijo. Depois, avenida acima, era só regressar pelo mesmo caminho.
No entanto, havia um problema que me incomodava: de cada vez que regressava dessa volta, chegava com as costas doridas e a sensação prolongava-se por dois ou três dias. Era tão incómodo que não o podia ignorar. O piso duro do alcatrão e do cimento deixava-me todo estragado. Um dia, mais uma vez a correr até à rotunda, não sabia por onde ir. Bem tinha olhado o mapa em busca de inspiração, bem tinha dado voltas à cabeça a imaginar o sítio ideal para correr nesta cidade. Sem pensar, atravessei a rotunda para o lado interior. E aquele momento foi mágico: quase como se tivesse atravessado o Mar Vermelho.
De repente, dei por mim a correr em terra batida - um piso muito querido pelos corredores do mundo inteiro. Continuei a correr por dentro da rotunda e aquilo continuava, continuava, todo o perímetro da Rotunda da Boavista era do melhor para correr: uns 600 metros de pista como nunca vi em lado nenhum!
Acredites ou não, desde então "assinei" pelo "Clube de Atletismo da Rotunda da Boavista" e é lá que vou dar dez voltas, duas vezes por semana. Quem diria que aquilo com que andava a sonhar estava tão perto?! Não só faço um pouco de exercício físico como me divirto a cronometrar os tempos que faço. Estes são os que o meu relógio registou na última sessão: Volta 1 - 3'50''; 2 - 3'10''; 3 - 3'04''; 4 - 3'02''; 5 - 3'01''; 6 - 3'00''; 7 -2'59''; 8 - 2'59''; 9 - 2'56''; 10 - 2'36''.
É, sem dúvida, a melhor pista de atletismo do Porto. É por isso que te peço que não digas a ninguém. Não vá aquilo tornar-se percurso habitual dos joggers desta cidade e tornar-se tão mau como o trânsito caótico que anda à volta da minha pista.
Porto interior. É assim que se chama o meu novo programa que passa na Rádio Douro. O objectivo é proporcionar um tempo de paragem antes de dormir. Em cada emissão o programa faz uma proposta de revisão do dia que passou, ajuda na preparação para o descanso que chega e abre janelas para o dia que há-de vir. A sua frequência é diária e tem a duração de 10 minutos. A emissão é logo a seguir ao noticiário da meia-noite, às 00.05. Fica aqui a primeira emissão para abrir o apetite.
Um industrial do Norte ficou horrorizado ao encontrar um pescador do Sul deitado junto do seu barco, a soltar baforadas de um cachimbo: “Oiça: porque é que não vai ao mar pescar?”.
Disse-lhe o pescador. “Porque, por hoje, já pesquei quanto basta”
“Mas então, porque é que não pesca mais do que precisa?”- insistiu o industrial.
“E que faria eu com o que sobra?” respondeu de novo o pescador.
“Pois ganharia mais dinheiro, amigo! Depois, com tal dinheiro compraria um bom motor para colocar no barco. E, saindo a pescar em mar profundo, pescaria mais peixe e, com os lucros passaria a comprar redes de nylon que dariam mais pesca e mais dinheiro. Depois de certo tempo – quem sabe – uma frota inteira, ficando milionário como eu!” – riu-se o industrial.
“E depois de tudo isso, o que faria?” insistiu o tranquilo pescador.
“Depois deitava-se a descansar, gozando em paz o mundo e a vida!”.
“E o que pensa você que eu tenho vindo a fazer?”
[Anthony de Mello in “O canto do pássaro” – Conto “O pescador feliz”]
Nota: se não é verdade, podia ser. A Rádio Douro não existe (pelo menos, acho que não existe!) e o programa foi apenas um exercício realizado para a minha cadeira de Rádio na Escola das Artes, sob orientação do professor Henrique Manuel Pereira.
Lua. Quando o Homem finalmente chegou à Lua, em 1969, era enorme a expectativa em relação ao que se iria ali encontrar. Esperava-se fotografias de paisagens impressionantes. Ansiava-se por abundantes registos fotográficos das crateras e do solo lunar. No entanto, aconteceu algo que superou todas as expectativas. Pela primeira vez, vimos uma imagem da Terra vista da Lua. Pela primeira vez, tivemos uma imagem do que nós somos, vistos da Lua. No fim daquilo tudo, a maior descoberta da primeira viagem à Lua não foi o contacto directo com o único satélite natural do nosso planeta. A maior descoberta foi o que ela trouxe de conhecimento de nós próprios.
Divina Comédia. Quando eu estava no Noviciado, por sugestão do Pe. Nuno Tovar de Lemos, decidi ler "A Divina Comédia". Sim, essa mesma. A de Dante Alighieri. Pareceu-me muito sugestivo mas não sabia no que me estava a meter. Como o Natal se aproximava, pedi o dito livro como prenda ao meu irmão mais velho. O rapaz lá se desdobrou em contactos e livrarias. Foi difícil encontrar quem o tivesse. Finalmente chegou a vez da Bertrand da Baixa (lisboeta) e teve uma resposta meio positiva. Quer dizer, um terço positiva. É que tinham uma edição em três volumes (Inferno, Purgatório, Céu) mas havia um problema: o Purgatório e o Céu estavam esgotados. Só tinham o Inferno disponível!
Morte.Durante vários anos, o Pe. Vasco Pinto de Magalhães e o agora meu professor Henrique Manuel Pereira, tiveram um programa de rádio em que aprofundavam temas de fé. Decidiram às tantas aproveitar o belíssimo trabalho já desenvolvido: organizaram-no, adaptaram-no e publicaram dois volumes: um chamado "Pensar a Vida", outro "Pensar a Morte". Passados poucos meses, o Pe. Vasco recebeu notícias sobre o andamento das vendas. Estavam a correr bastante bem, mas havia um aspecto curioso. Enquanto o "Pensar a Vida" desaparecia das livrarias e recebia mais encomendas, o "Pensar a Morte" ficava arrumado a um canto!
Estas históriasvieram-me à memória por razões diferentes mas convergentes. Quanto à da Lua, porque tenho andado a pensar que às vezes precisamos de fazer uma grande viagem ao "outro lado do mundo" para podermos ganhar distância e vermos o nosso mundo e a nós próprios de outra perspectiva. A maior viagem, afinal, serve para voltarmos a nós de uma maneira nova. Saímos de casa para voltar a casa, mas a uma casa que já nada tem a ver com a primeira. Porquê? Estamos diferentes por dentro e, por isso, todo o mundo se alterou. Quanto à da Divina Comédia, lembrei-me mais pelo que tem de cómico. Só o Inferno estar disponível parece uma piada. Mas pode ser que esteja intimamente ligada à última história. Lembrei-me ainda da da Morte porque é sintomática da nossa má relação com o acontecimento mais certo da nossa existência.
Passamos a vida a esquecermo-nos de que a vida é frágil, quebradiça, efémera. Passamos o tempo a fingir que somos imortais. Como se ao nascer tivéssemos recebido a vida eterna. E a verdade é que - os registos assim o indicam - a percentagem de pessoas que morrem é de 100%. Todos iremos passar para "o outro lado". Então, mais vale contar com isso. E tentar ir passando aos poucos, porque de uma vez custa mais. Felizmente temos pessoas que no-lo vão recordando e que, apesar de ainda não terem passado por ela, nos dão pistas sobre como viver melhor a morte.
Espantado mas plenamente convencido tenho chegado à conclusão que há pessoas vivas que já passaram para "o outro lado". Umas por meio de um acidente ou uma doença grave, outras simplesmente por terem recebido um dom especial de Deus. São pessoas que fizeram "a viagem até à Lua": viram-se do "outro lado", olharam a morte de frente e já não a temem. Já fizeram o seu luto. Já vivem mais do "lado de lá" do que do "lado de cá". Parece que só vendo a vida a partir da morte lhe conseguimos dar o devido valor. Só assim alcançaremos as camadas profundas da realidade porque a conseguimos ver do ponto de vista do "lado de lá". Quem o consegue sente-se tão feliz que não se importa minimamente com a morte. Vou encontrando pessoas destas por aí. Acho que é isso, o Reino de Deus.
Ninguém é santo. Dizer que uma pessoa é santa é como dizer que um copo é vinho. Um copo não é vinho. Um copo contém vinho. Assim também uma pessoa é portadora de santidade. Uma santidade que não é sua. Uma santidade que lhe é dada. E mais: um copo poderá conter vinho se não estiver partido, se não estiver atestado de outras coisas. Assim também a pessoa poderá estar repleta de santidade se proporcionar espaço e condições para que tal aconteça. Mas não depende apenas dessa abertura. Depende sobretudo do Dono da Adega.
Tenho tido a felicidade de conhecer pessoas que são autênticos copos a transbordar, pessoas que emanam aromas silvestres inebriantes. O exemplo mais recente é o do Prof. Daniel Serrão. Tive o privilégio de o conhecer de perto há poucos dias. É evidente que aquele senhor é portador de Algo que me transcende. A mim e a ele próprio. Um dom imenso. Mas fiquei a pensar no significado profundo daquele encontro.
Aquele senhor é um dos tais copos transbordantes, sem dúvida. Repleto de um vinho da primeira qualidade, daqueles que não se vendem nas lojas, sem dúvida. Mas, embora me alegre por ser assim mesmo, sinto-o como um vinho feito de castas que não são as minhas. Pode servir-me de referência, mas nunca o poderei alcançar. E talvez deva nem pensar nisso.
O encontro deixou-me a pensar no porquê de haver pessoas a quem aparentemente as coisas são mais fáceis. No porquê de uns nascerem com maior saúde interior e outros com menos. A santidade, em alguém plenamente saudável, é fácil de perceber e admirar. Mas como imitar? Não se pode. Assim como nem todos nascemos para sermos atletas olímpicos, assim como nem todos nascemos para escrever ou dançar nem todos nascemos com as mesmas condições em relação à vida interior. Não temos todos o mesmo ponto de partida.
Então fica-me a pergunta: a santidade é elitista? É só para alguns? Não, isso é absurdo! Então como explicar este desfasamento? A explicação - parece-me - é que a cada um é pedido um determinado caminho de santidade, mesmo que pareça não ser. Há pessoas que nunca sentirão a paz do Reino dos Céus como ela é prometida nas homilias, nos livros, nas conferências. Há pessoas que nunca irão sorrir, pela vida demasiado pesada que levam. Há pessoas que sempre se sentirão esmagadas perante a ideia de Deus. Se há pequeninos no Reino dos Céus, parece-me que são aqueles que não o conseguem experienciar já aqui.
Se há pessoas saudáveis que, por muito que se esforcem, não conseguem encontrar a Deus, então o que será com pessoas com doenças do foro psicológico ou psiquiátrico. Encontrei uma Grande Reportagem da SIC que ilustra bem como as doenças mentais podem limitar a vida. Agradeço a humildade das três pessoas que sofrem de doença bipolar e que tiveram a coragem de partilhar o seu caso. A quem sofre de doenças deste género pode ajudar muito saber que não estão sós. Quem não sofre, deve agradecer por isso e procurar compreender quem sofre. Umas e outras temos uma vida que nos é dada a escrever com a nossa própria caligrafia. E não com a de outros.
Cumprir sonhos ou cumprir realidade? O que devo escolher? Pela vida fora, vou vendo como há tantos sonhos que devem cair para dar lugar à realidade. Mas descubro também que há muitas realidades que devem cair para dar lugar a determinados sonhos. É essa a história da humanidade. É essa a minha e a tua história.
O sonhador pergunta: "e se fizéssemos isto como nunca se fez antes?". Mas sem realidade, os sonhos tornam-se meras utopias, castelos no ar, becos sem saída. Chegam a ser altamente destrutivos. O realista afirma: "se sempre se fez desta maneira, é porque há uma razão. Isso não é possível". Mas sem sonho, a realidade cristaliza, seca, paralisa. Chega a ser um peso insuportável.
O segredo parece estar em conseguir o equilíbrio entre estas dimensões. Estabelecer um diálogo entre elas: o sonho é força propulsora, o realismo dá raízes. Por isso, o que me é pedido é que sonhe com o coração repleto de realidade e construa com mãos cheias dos melhores sonhos.
Escrevo estas linhas como se fosse um grande mestre desta arte. Não me sinto totalmente confortável com isto: detesto que um comunicador fale apenas das ideias que tem e não de si, da sua experiência concreta. Por isso, confesso desde já que vive dentro de mim um sonhador arreigado que não arreda pé. De vez em quando tenho que o ir acordar e dizer: "Ei! São horas de acordar, sim?". Ou "vá! já sonhaste o suficiente! Agora, que queres fazer?".
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Tenho 32 anos. Sou jesuíta em formação. Vivo na residência de jesuítas de Nossa Senhora de Fátima, no Porto (Portugal). Estudo na Escola das Artes (UCP). Gosto de correr para descansar.